terça-feira, 22 de maio de 2012

Faculdades Privadas e a Universidade Pública Brasileira

Em detrimento dos apenas 7,9% de brasileiros que possuem algum tipo de formação superior nesse país, os rankings do ENADE* a cada ano estão a provar a qualidade do ensino refletido nas boas prestações de alunos da universidade pública brasileira. A cada ano, a qualidade do ensino se mostra ascendente em algumas universidades públicas que, entre si, disputam as primeiras colocações nesse ranking, trabalhando passo-a-passo o ano todo para o bom desempenho curricular e, portanto, avaliativo no exame. No último ENADE, realizado em 2011**, algumas faculdades e centros unversitários particulares obtiveram grandes colocações, desbancando universidades públicas renomadas e conceituadas, como a UNICAMP (Universidade de Campinas) e o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica).

Partindo desse pequeno pressuposto conceitual/situacional, meu comentário assim se faz: Muito se credita a má qualidade gestora da educação desse país que os índices de brasileiros nas universidades seja menor, e muito menor, que os padrões internacionais, puxados principalmente pelas instituições europeias de ensino. Essa má qualidade gestora ano após ano barra de alguma forma o avanço da qualidade educacional que se pratica dentro da, especificamente falando, universidade pública. Quem estuda em instituições públicas de ensino superior sabe que o conhecimento ali produzido se dá em condições precárias, em estruturas que não são adequadas, onde tudo funciona precariamente. Logicamente, nem todas as universidades públicas são da mesma maneira e algumas tem recursos a disposição de seus alunos que muitas faculdades e centros privados também possuem ou, muitas das vezes, não possuem também. Procurando restringir ainda mais o discurso, olhemos agora para o nosso estado.

O Amapá possui atualmente, registradas no ENADE, 24 instituições credenciadas, dentre extensões de universidades e faculdades estabelecidas, até a Estadual e a Federal. No último exame, certificou-se que a grande maioria seguiu os parâmetros de avaliação nacional em um desempenho fraco, com notas de 1 à 2. O melhor desempenho credenciou mais uma vez a Universidade Federal do Amapá como a mais gabaritada do estado. Dentre as particulares, com maioria de notas 2, muitas empataram, quase todas dos mesmos grupos educacionais. Atendo-se nesses valores, vamos agora avaliar as condições presentes.

Nesse presente momento, a Universidade Federal do Amapá está em greve. Eu tomei a liberdade de selecionar os dados acima para basear minha fala em fatos atuais e lógicos. Sendo menos formal, o que era objetivo desde o começo, mas mediante o caráter informativo não foi possível, constantemente me deparo com situações corriqueiras quando minha universidade entra em processo de greve. Existe ainda na cabeça das pessoas aquela rivalidade entre acadêmicos de universidades públicas e de faculdades particulares. Os discursos, cada vez mais manjados, fazem a defesa do lado que mais convém, em réplica e tréplica intermináveis. Recentemente, na minha timeline no Facebook, encontrei diversas mensagens direcionadas a mim com chacotas sobre a greve em que a UNIFAP recentemente se envolveu. Muitos são os meus pensamentos em horas como essas.

Se as pessoas fazem chacota com a reivindicação de profissionais por reajustes salariais e melhores condições de trabalho e que realizam, em precariedade, o melhor ensino superior nas cadeias federais desse país, eu não sei o motivo pelo qual as particulares aceitam essas pessoas em seu quadro de acadêmicos. Até sei (grana), ma$ me re$ervo ao direito de não falar. Se as pessoas mandam mensagens "zoando" o fato de não haver greve em suas faculdades, apesar de particulares, como elas mesmas dizem, e na universidade pública há todo ano, eu não sei o que mais importa pra essas pessoas: o orgulho de ser da sua faculdade, que os vêem não como futuros profissionais, mas sim como lucro no fim do mês e retorno de investimento, ou um futuro compromissado de TODOS que estão no ensino superior, não importando a origem, se privada ou pública, com a excelência em relação as suas respectivas funções e profissões. Penso eu, acadêmico "made in" maternal, escola e universidade pública, com orgulho, que deveríamos focar mais no objetivo principal, que é buscar por um ensino de excelência a fim de servir bem a sociedade enquanto profissionais formados e aptos a exercer as funções delegadas a nós pela escolha do curso e pela demanda social. Claramente, tenho minhas objeções e meus elogios as faculdades particulares, dentre elas a grande PUC, que realiza um trabalho sensacional na educação desse país, mas não objetivarei isso em minhas palavras, poupando-me de contrariar meu próprio discurso.

O que quero dizer diante dessa leitura é que não basta ter acesso ao ensino superior, não basta estudar nesta ou naquela universidade ou faculdade, ou centro, ou instituto superior, não importa a quantidade de aulas, a carga horária carregada, que muitas das vezes nem é cumprida. O que importa é uma luta significativa pela melhoria da qualidade da educação pública brasileira, voltada a valorização dos professores e a capacitação dos mesmos, o investimento pesado em estrutura física e pessoal, dentre outros atos que somente dariam a entender e exporiam a todos de uma vez por todas a qualidade que, em meio a todas as intempéries, possui o conhecimento produzido nas universidades públicas do Brasil. O que importa é o respeito e a valorização social dos profissionais de todos os níveis da educação, desde a professora do maternal, até o pós-doutor da universidade mais renomada. O que importa é a valorização da educação, não apenas em números e estatísticas, mas em produção intelectual, não apenas para aferir dados e equivaler tais dados as grandes notas e desempenhos internacionais, mas para proporcionar conhecimento e igualdade de mobilidade social e de qualidade de vida para todos os brasileiros. Receio e afirmo que esses valores estão se perdendo, ou estão perdidos, precisam ser resgatados e isso precisa virar uma bandeira de luta de todos que se envolvem com a causa, que é uma causa de todos e, portanto todos deveriam lutar pela educação de qualidade.

"Bendito é aquele que semeia livros, livros a mão cheia e manda o povo pensar; o livro caindo na alma, é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar" 
                                                                                                      Castro Alves.

*   Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, que substitui o antigo Provão, realizado desde 2004
** http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/11/373-das-instituicoes-de-ensino-superior-estao-abaixo-da-media.html (aqui você pode baixar o .xls para comprovar as notas de todas as faculdades, centros e universidades avaliadas).

Nenhum comentário:

Postar um comentário